Meio século de anarquia
2026 é o ano do nosso 50º aniversário. Para ser preciso historicamente, a data de nascimento oficial é 26 de setembro de 1976, durante os trabalhos do congresso internacional de estudos organizado em Veneza para o centenário da morte de Bakunin. Um ato fundador com uma forte conotação identitária, mas a história que se segue recoloca essa escolha em um discurso muito mais articulado, que combina a revisitação histórica – nunca hagiográfica nem muito menos museológica – com a reflexão sobre o pensamento anarquista e suas práticas à luz das profundas transformações sociais, econômicas, culturais, tecnológicas… ocorridas nas últimas cinco décadas. E as pesquisas realizadas ao longo do tempo – da autogestão à tecnoburocracia, da utopia ao anarcofeminismo, da ecologia social aos neoanarquismos em suas várias vertentes – confirmam essa trajetória, que está longe de ser linear e nunca se completa, feita na maioria das vezes por estradas acidentadas e caminhos pouco percorridos.
Justamente esse duplo foco – a memória histórica e a compreensão do mundo em que vivemos e agimos – é talvez o traço que mais distingue nosso trabalho de várias décadas. Mas não se trata de dois aspectos que correm em paralelo sem nunca se tocarem: o passado nas prateleiras e o presente nas atividades de pesquisa. Ao contrário, os dois aspectos interagem estreitamente, dando-se sentido mutuamente. Aliás, como ratos de biblioteca que em parte somos, podemos testemunhar que a história do anarquismo, ou melhor, dos homens e das mulheres que o encarnaram, é uma história de infinita criatividade. Se vasculharmos os muitos papéis de arquivo, sejam livros, jornais ou os documentos mais incatalogáveis, e nos esforçarmos para ler nas várias línguas do internacionalismo anarquista, percebemos que entre esses papéis amarelados encontram-se ideias e experimentações extremamente atuais. Certamente as circunstâncias históricas são diferentes e, portanto, cabe a nós contextualizar e atualizar, mas a extraordinária capacidade de imaginar e muitas vezes pré-figurar modos de viver juntos sem hierarquias e sem dominação continua surpreendente. Tanto que às vezes – comparando as várias épocas – perguntamo-nos por que cada geração precisa redescobrir as mesmas coisas e repetir os mesmos erros, quando bastaria ler de forma crítica os “frágeis papéis” do passado para tirar proveito de uma experimentação social formidável.
E essa capacidade pré-figurativa dispersa no tempo e no espaço é também a prova incontestável de outro ponto firme da nossa experiência: que a história do anarquismo só pode ser uma história vista de baixo. Com isso não queremos dizer que “repudiamos” nosso ato fundador dedicado a Bakunin, ou os momentos posteriores de reflexão dedicados aos grandes pensadores clássicos como Malatesta, Kropotkin, Reclus, Berneri… na verdade, os reivindicamos, porque foram revisitações heterodoxas que extraíram de seu corpus teórico – e colocaram novamente em circulação – tudo o que dialoga com o presente. Mas se é da história não das ideias, mas dos movimentos que pretendemos tratar, então é para as fileiras anônimas que construíram tanto as barricadas quanto as comunidades que devemos nos voltar. São eles os protagonistas da história anarquista.
Disso e de mais tratamos no meio século que nos separa de 1976, durante o qual compusemos e recompusemos incessantemente nossa visão de anarquia, uma atitude que não pretendemos abandonar nem mesmo no futuro incerto que nos espera. Uma coisa, porém, é certa: nossa trajetória continua, seja com a pax romana que marcou o passado ou com os cenários totalitários que se delineiam no futuro próximo. E outra coisa é igualmente certa: essa trajetória não a fizemos sozinhos e continuaremos a fazê-la com muitas outras pessoas, tornando-a assim uma verdadeira empreitada coletiva.
Como é inevitável com o passar do tempo, muitos dos companheiros e das companheiras que tornaram vital nosso centro de estudos/arquivo – começando pelo núcleo fundador, o mesmo da “A rivista anarchica”, da “Interrogations” ou da “Volontà” – já não estão mais entre nós. No entanto, o que fizeram ainda está aqui, suas ações e reflexões são os tijolos que ainda hoje sustentam o edifício. Queremos lembrar especialmente dois deles, Amedeo Bertolo e Paolo Finzi, ambos figuras centrais da nossa história. E concluímos citando uma frase proferida justamente por Amedeo no início desta longa jornada: “Somos anarquistas e orgulhosos de o ser”. Cinquenta anos depois, ainda somos assim.
14/07/2026



